top of page

Criatividade no Cotidiano: Como Transformar o Ordinário em Extraordinário

  • Foto do escritor: Larissa Morangoni
    Larissa Morangoni
  • 16 de ago. de 2025
  • 7 min de leitura

Um convite para cultivar a criatividade como hábito – da neurociência à filosofia, da subversão ao silêncio.


Ao longo deste mês, exploramos a criatividade como um rio caudaloso que atravessa a ciência, a arte, a história e o nosso dia a dia. Descobrimos que ela não é um dom reservado a poucos, mas uma habilidade que pode ser cultivada – uma prática que transforma perguntas em pontes, desafios em combustível e o silêncio em terreno fértil.


Se você acompanhou essa jornada no Instagram, já sabe: a criatividade não vive só nos ateliês ou nos laboratórios. Ela mora no modo como você reorganiza a sala, na pergunta que você ousa fazer, no caos que você abraça para criar algo novo.


Aqui está um mapa para integrar tudo o que conversamos e inspirar você a fazer da criatividade um hábito:


1. O Cérebro Criativo: Ciência e Perguntas Ancestrais


A neurociência nos mostra que a criatividade é uma dança entre o córtex pré-frontal e as redes de associação livre do cérebro. Mas os antigos já sabiam disso: o I Ching e o Épico de Gilgamesh nos ensinam que as perguntas certas – especialmente aquelas que nos tiram da zona de conforto – são o primeiro passo para respostas novas e talvez mais interessantes. Relatei bastante sobre esse tópico na postagem anterior.


2. Subversão e Caos: A Arte de Quebrar Regras


Três revolucionários da arte mostraram que destruir normas pode ser um ato criativo:


  • Tristan Tzara (1896–1963), poeta do Dadaísmo, defendia que a arte nasce do absurdo (ex: criar poemas recortando palavras de um jornal e sorteando-as).

  • William S. Burroughs (1914–1997), escritor da Geração Beat, usava a técnica do cut-up (cortar e rearranjar textos aleatoriamente) para fugir do óbvio.

  • Dogme 95, movimento cinematográfico fundado por Lars von Trier, impunha regras radicais (ex: proibição de trilha sonora ou efeitos especiais) para estimular soluções criativas.


Tristan Tzara, Burroughs e o Dogme 95 nos lembraram que a criatividade muitas vezes nasce da destruição do óbvio. Cortar, colar, inverter ordens ou impor limites absurdos (como filmar só com uma câmera na mão) pode gerar soluções brilhantes.


Como Usar o Caos a Seu Favor? Apresento as Estratégias Oblíquas!


A. O que são?


São cartas (ou frases) com instruções aparentemente absurdas — como "Destrua a coisa mais importante" ou "Mude de instrumento" — que funcionam como gatilhos para desautomatizar o pensamento. Foram popularizadas por Brian Eno e Peter Schmidt e são um convite a romper com a linearidade e abraçar o caos criativo. As cartas não são regras, mas anti-regras: provocam rupturas deliberadas para escapar de bloqueios ou da mesmice.


B. Por que quebrar regras ajuda a criar?


  • O cérebro adora atalhos: ficamos presos em soluções óbvias porque poupam energia (viés cognitivo).

  • O caos gera adaptação: quando você força uma mudança abrupta (ex.: escrever com a mão não dominante), ativa redes neurais adormecidas.

  • O erro vira combustível: estratégias oblíquas transformam falhas em insights (ex.: um "acidente" musical pode virar um riff inovador).


C. Como aplicar no dia a dia (sem cartas)?


  • "Perturbe seu ritual":

    • Se você sempre trabalha em silêncio, coloque uma música aleatória de um gênero que odeia.

    • Escreva um e-mail importante como se fosse uma receita de bolo (e depois revise).

  • "Inverta a lógica":

    • Em vez de "Como resolver X?", pergunte "Como piorar X?" — as respostas revelam o que realmente importa.

  • "Escolha a opção mais desconfortável":

    • Se você é racional, decida algo por intuição; se é emotivo, liste prós e contras matemáticos.


D. Psicologia Positiva + Caos = Criatividade Fluida


As estratégias oblíquas são ferramentas de resiliência cognitiva. Quando abraçamos o desconforto proposital, exercitamos:


  • Flexibilidade mental;

  • Autocompaixão (errar vira parte do processo, não fracasso);

  • Flow (o estado de absorção criativa nasce justamente de desafios desequilibrados).

Importante ressaltar: Estratégias oblíquas não são sobre anarquia, mas sobre reprogramar a relação com o imprevisível. Como diria Eno: "Honre seu erro como uma intenção secreta".


E. Silêncio e Minimalismo: O Espaço Vazio que Gera Ideias


A contemplação criativa exige espaço interno. Seja através do minimalismo (menos objetos = mais foco) ou da prática do silêncio (meditação, caminhadas sem música), a criatividade floresce quando damos à mente um respiro da hiperestimulação.


É comum notar na rotina de pessoas criativas, quando elas têm a generosidade de compartilhar essa informação, a presença de consistentes blocos de horas vazias. Períodos até longos de tempo não direcionado ao trabalho, nem a produção de nada. Por vezes preenchidos por momentos de socialização, caminhadas, alimentação tranquila…


4. A Casa Como Laboratório Sensorial


Seu ambiente físico é um campo de treino criativo. As cores, texturas e sons do seu espaço influenciam sua mente. 


  • Joe Dumit, antropólogo americano, estuda como os espaços cotidianos influenciam nossa cognição (ex: uma cozinha organizada pode estimular hábitos criativos na alimentação). Sua obra revela um insight poderoso: a criatividade não é apenas sobre "produzir" – é sobre habitar o tempo e o espaço com atenção radical. Além disso, trata da lentidão criativa como importante elemento para a boa fermentação das ideias. “A velocidade nos dá respostas, a lentidão nos dá perguntas melhores”

  • Larry Beckett, poeta e colaborador de Tim Buckley, misturava narrativas científicas e poéticas para mostrar como o corpo e o espaço dialogam.


Larry Beckett e Joe Dumit nos mostram como narrativas híbridas (misturar poesia com ciência, por exemplo) podem surgir dessa atenção ao cotidiano.


No detalhe: O Poder da Lentidão Criativa


Dumit mostra que, em culturas orientadas por produtividade, perdemos a capacidade de "demorar" – gesto essencial para:


  • Observar padrões sutis (ex: como a luz muda na sua sala ao longo do dia);

  • Processar informações de forma não linear (o "tempo de incubação" das ideias, estudado pelo psicólogo Graham Wallas);

  • Criar conexões inesperadas (como a artista Hilma af Klint, que passava anos anotando insights antes de pintar).


Em seus experimentos, participantes que reduziam a velocidade ao realizar tarefas cotidianas (ex: lavar louça) relataram "epifanias criativas" – como se o cérebro, liberado da urgência, encontrasse espaço para associações novas.


Como Aplicar Isso no Dia a Dia?


Ritual da Pausa Obrigatória

  • Antes de começar um projeto, gaste 5 minutos em silêncio apenas observando os materiais (ex: folha em branco, tela do computador). Anote sensações físicas (tato, cores) antes de agir.


Diário da Lentidão

  • Uma vez por semana, registre um momento banal (ex: esperar o café passar) com detalhes sensoriais (cheiros, sons). Treine seu cérebro a valorizar o "entre".


Espaços de Demora

  • Crie um canto lento em casa: uma poltrona perto da janela, um caderno sem linhas para rabiscos sem objetivo.


Por que isso funciona?


  • Neurociência: O modo default do cérebro (ativo em repouso) é responsável por insights criativos (estudos de Marcus Raichle).

  • Arte: O cineasta Andrei Tarkovsky defendia que "o tempo é um material escultórico" – a lentidão permite que ideias amadureçam.


Outro detalhe: "Entre Palavras" - A Criatividade no Limiar do Inefável


E se explorarmos também o espaço entre as palavras? – aquilo que a linguagem não nomeia, mas que pulsa nas pausas, nos silêncios e na tensão entre línguas diferentes.


A Tensão entre Linguagem e Inefável


O filósofo Ludwig Wittgenstein já alertava: "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Mas é justamente no desejo de expressar o inexprimível que a criatividade se agita:


  • Poetas como Manoel de Barros brincam com vazios linguísticos (ex: "Preciso de palavras que faltem");

  • Artistas visuais como Mira Schendel usam letras rasuradas ou transparentes para sugerir o que está "entre" (veja sua série "Bordados do Silêncio").


Multilinguismo como Combustível Criativo


Estudos (como os da psicolinguista Ellen Bialystok) mostram que pessoas bilíngues ou multilíngues desenvolvem:


  • Flexibilidade cognitiva: Trocar de língua recria rotas mentais, facilitando soluções inusitadas;

  • Sensibilidade ao contexto: A palavra "saudade" (português) ou "komorebi" (japonês: luz do sol filtrada por folhas) carregam nuances únicas – e misturá-las gera novas perspectivas. A escritora Clarice Lispector (que falava 5 idiomas) criava neologismos como "instante-já" para capturar o indizível.


Por que isso importa?


Se a lentidão nos ensina a esperar, o 'entre palavras' nos convida a dançar na corda bamba do indizível. Criar, então, vira um ato de tradução – não do mundo para a linguagem, mas do invisível para o compartilhável. Às vezes, a melhor palavra é a que ainda não existe. Você já sentiu algo que não consegue nomear?


5. Imaginação Radical + Empatia Criativa


Criatividade é também um ato de colocar-se no lugar do outro – seja através da arte, da escrita ou de simples gestos. Imaginar mundos radicalmente diferentes (como faz a ficção científica) exercita nossa capacidade de inovar.


  • "Imaginação radical": Termo cunhado por filósofos como Cornel West para descrever a capacidade de sonhar mundos totalmente novos.

  • Empatia criativa: A artista Yoko Ono (em "Grapefruit") propõe exercícios como "Imagine que você é uma nuvem por um dia" para expandir perspectivas.


6. Criatividade como Caminho para o Florescimento Humano


A psicologia positiva nos lembra: criar não é apenas sobre produzir algo novo – é sobre expandir nossa humanidade. Quando nos permitimos experimentar, errar e recomeçar, exercitamos duas forças essenciais para uma vida plena: a liberdade (de pensar além do óbvio) e a abertura (para o desconhecido).


Aqui, criatividade deixa de ser um "dom" e se torna uma prática de autoconhecimento e coragem. Cada vez que você questiona um padrão, mistura ideias aparentemente desconexas ou simplesmente se permite brincar sem julgamento, você está fortalecendo não só sua capacidade de inovar, mas também sua resiliência emocional e senso de propósito.


Conclusão: Criatividade É um Verbo


Não espere pela "inspiração". Ela virá quando você agir – questionando, subvertendo, silenciando, observando, imaginando. Comece pequeno: uma pergunta, uma mudança mínima, um exercício de empatia. Aos poucos, você notará: tudo pode ser uma oportunidade para criar.


Criatividade é, no fundo, a expressão mais pura do que nos torna humanos: a capacidade de transformar limitações em possibilidades, medo em curiosidade e rotina em ritual sagrado. Quando a cultivamos como hábito, não estamos apenas produzindo mais – estamos vivendo melhor.


"Era ele que fazia tudo

e tudo em suas mãos crescia."

— Vinícius de Moraes


A mão que transforma o barro em vaso, a pergunta em ideia, o silêncio em insight — a criatividade é mesmo, antes de tudo, um verbo. Agora, é a sua vez de juntar e experimentar essas peças…


 
 
 

Comentários


Formulário de inscrição

Obrigado(a)

Centro Clínico Aeroporto - Goiânia GO - (62) 3212-3029

Rua 9A, número 210, sala 402

 

AFFEGO Saúde

©2020 por Larissa Morangoni. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page